Estamos em setembro, mas já pode fechar o ano do rap nacional. O lançamento de ‘Esú’, do Baco Exú do Blues completou a tríade dos melhores e necessários discos do gênero esse ano. Junto a ‘Roteiro pra Aïnouz Vol. 3’ de Don L e ‘Regina’ de NiLL, não há espaço para nenhuma novidade mais surpreendente.

E olha que pra fechar esse pódio, foi preciso deixar pra trás alguns dos melhores e mais valorosos álbuns da atualidade. Ao abrir mão de esmiuçar o que Djonga fez com ‘Heresia’ e Clara Lima com ‘Transgressão’ foi necessária uma dose gigantesca de desprendimento e coragem.




Transgressão e heresia definem a ausência de ‘Galanga Livre’ nessa lista. Talvez por considerar este um marco na história do gênero, pois com um álbum Rincon Sapiência estabeleceu parâmetros nunca antes vistos, inclusive para artistas do mainstream.

Um ano tão prolífico abre margem à diversas interpretações, inclusive por ainda aguardar a finalização do projeto ‘Em Construção’ do Rashid e também pelo novo EP do Rodrigo Ogi, com previsão de lançamento para o próximo mês. Contudo este artigo é meramente opinativo e como tudo na vida, nada definitivo ou fechado. É quase uma provocação para que mais vozes se expressem sobre os lançamentos desse 2017. Um ano especialmente feliz para quem torce e acredita no rap nacional.

Confira a seguir os motivos para termos eleito os discos citados no primeiro parágrafo como os melhores do ano. 

Don L – Roteiro para Aïnouz, Vol. 3 

Pode acabar o ano, a tríade do RAP BR está completa em 2017

Carregado de sagacidade e lucidez desde os tempos de Costa a Costa, o último registro de Don L deveria servir de objeto de estudo, seja musical ou socialmente.

A capacidade em sintetizar e apontar questionamentos necessários no mercado fonográfico é assombrosa. Claro que o respeito conquistado por tudo que já fez serve para embasar suas críticas, feitas de maneira honesta e cordial, sem questionar pessoas, mas os seus direcionamentos.

Musicalmente, o EP ‘Roteiro para Aïnouz Vol. 3’ oferece um banquete de poesia e aula de produção de beats. Por ser representante da velha escola, nada ali soa pasteurizado ou recorre às fórmulas e chavões programados para agradar ouvidos preguiçosos. A mais pura essência do rap, somente ritmo e poesia.

As referências ao diretor cearense Karin Aïnouz compõe e inspiram grande parte do trampo, onde os reflexos e reflexões propostos por Aïnouz em sua obra, são enquadradas por Don L através de sua perspectivas ao expor ideias e procurar respostas.

Com participações de gente do calibre de Diomedes Chinaski, Terra Preta, Nego Gallo, Fernando Catatau, Thiago França e Lay, o EP se agiganta e incita aos ouvintes a necessidade de reproduzir faixas repetidamente para absorver cada detalhe.

NiLL – Regina

Pode acabar o ano, a tríade do RAP BR está completa em 2017

A impressão ao ouvir seguidas vezes ‘Regina’ é que NiLL é um operário das linhas. Cada construção poética é trabalhada e remoldada ao extremo para entregar o melhor produto final. A fluência e naturalidade que resultam disso dão a impressão de que não foi preciso esforço nenhum. Parece fácil, mas só pra ele e não pro resto do mundo.

 O peso emocional e experiências pessoais humanizam demais o álbum. A lírica informal e o clima de desprendimento ao contar situações corriqueiras aproximam muito o ouvinte. Mesmo algumas faixas não batendo iguais às outras, o clima criado permite a audição completa quase sem perceber.

 Os beats, samples e participações são importantíssimas para segurar as linhas. Essa estrutura é o que permite as experimentações e construções pouco usuais. Destaque para a faixa compartilhada com Rodrigo Ogi e De Leve que a mim rememorou os bons tempos de supergrupos como Quinto Andar e Subsolo. Mais pela junção de gente desse peso do que propriamente pelo som.  

Para quem acompanhar pelo YouTube, existe o bônus da produção dos vídeos em 8 bits exclusivos para cada som. Aumenta a sensação de um filme completo e trilha perfeita. 

Baco Exú do Blues – Esú

Pode acabar o ano, a tríade do RAP BR está completa em 2017

Uma taça de cristal cheia de água da pia. O que tem dentro é o mais importante, é vital, mas sem um recipiente bem talhado, pouca gente dá atenção. Pode ser o contrário, um copo sujo cheio de água limpa. Pra matar a sede precisa entender o conteúdo. O peso do mundo e dos versos mais sujos e diretos colocados sem medo algum de qualquer mal entendido. Desde a apresentação da capa, já havia a certeza de que o conteúdo seria visceral e pontuado sem nenhum espaço para afagos. E nenhuma falsa modéstia nas linhas.

Um autorretrato pintado numa tela coberta por referências pessoais. Os samples, os beats e a composição de cada flow é direcionado por um caminho conhecido. A impressão do álbum completo é de um manifesto particular sobre a maneira de encarar o mundo. Entre as virtudes e imperfeições, a sabedoria em escolher seu próprio lugar deu o poder para que ‘Esú’ transcendesse o rap.

É muito mais, vai além do ritmo, da poesia e da política. Não queria me repetir, mas é impossível não enxergar o contexto e visualizar um manifesto. Todos os componentes presentes instigam à reflexão. Provocações acerca do sincretismo religioso, musical e desigualdade entre relações pessoais em todos os níveis permeiam cada trecho do álbum.

Ainda vai demorar para que tudo desenhado ali seja decifrado, talvez o álbum mais revolucionário lançado em muito tempo. Não tenho coragem de rotular em um gênero e enquadrar em uma prateleira musical. Eu sei, emocionei. Mas música não é isso também? 

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Estamos em setembro, mas já pode fechar o ano do rap nacional. O lançamento de 'Esú', do Baco Exú do Blues completou a tríade dos melhores e necessários discos do gênero esse ano. Junto a 'Roteiro pra Aïnouz Vol. 3' de Don L e 'Regina' de NiLL, não há...