Breve história das mulheres na música   1ª parte




© Alan Levenson/Corbis

Uma das músicas mais clichês da década de 90, What’s Up do 4 Non Blondes, tem o seguinte verso:

“I realized quickly when I knew I should
That the world was made up for this
Brotherhood of man
For whatever that means”

E a sensação é essa mesmo, percebemos cedo que o mundo é formado por uma irmandade masculina, mas leva tempo para descobrir o que realmente isso significa.

Sendo mulher, escrever um texto sobre qualquer coisa que explique o real significado do que é ser mulher é, no mínimo, doloroso. Uma vez que a habilidade e talento não são benefícios de gênero me parece que o desmerecimento, é. E isso acontece com uma frequência absurda na música (e também fora dela). Sempre de forma sútil, o julgamento começa a partir do caráter, vai para a “moral” e chega até o âmbito estético: “Ela não se dá o respeito, é muito vulgar”, “Está com ele por interesse”, “Ela é a culpada pelo fim da banda”, “Isso é muito bom para ter sido feito por uma mulher”, “Ela é talentosa, pena que é feia”.

A quantidade de pessoas que eu conheço que desgostam e desmerecem musicalmente bandas de minas, é absurda. Como se toda banda formada por homens fosse superior só pelo fato de haver homens e, convenhamos, tem muita banda bosta idolatrada por aí.

E aí, sempre tem alguém para questionar: “Mas porra, tem um monte de mulher foda na música! Gente grande mesmo”. Claro que tem, amigão (na maior parte das vezes esse questionamento parte de um homem, nada de novo no front)! Mas o que foi preciso para elas chegarem lá e se consagrarem no hall da música? E é isso que vamos ver nessa listinha de mulheres fodas:

4 – Courtney Love / Hole

Quem é? Courtney cresceu numa família nada convencional: seu pai era empresário do Greateful Dead e perdeu sua guarda após ter lhe dado LSD quando ela tinha apenas 14 anos. Depois disso, foi morar com sua mãe em uma comunidade hippie e aos 16 anos, após passar por vários lares provisórios, já estava emancipada.

O que ela fez? Courtney estudou arte e teatro, fez pontas em filmes e quase interpretou Nancy no filme “Sid & Nancy” de 1986. Ela começou a tocar baixo, depois guitarra e teve várias bandas chegando até a ocupar os vocais do Faith No More por um curto período de tempo.

Em 1989 surgia o Hole e dois anos depois, seu primeiro disco o “Pretty on the Inside”. Em 1998, a banda lançou o “Celebrity Skin” seu mais consagrado disco. Vendeu mais de 1 milhão de cópias, foi indicado a 4 Grammys. Em paralelo ao lançamento do disco, Courtney investia em sua carreira como atriz sendo indicada ao Globo de Ouro por seu papel em “O povo contra Larry Flint”.

Pelo que ela é lembrada? Apesar de ter feito tudo isso, Courtney é lembrada por ter sido casada com Kurt Cobain. Sim. Isso mesmo. O relacionamento dos dois foi conturbado e regado pelo abuso de drogas por ambas as partes, no entanto, tudo o que ela fez e ainda faz é sempre atrelado a ele, que morreu a mais de 20 anos. Como se não bastasse, ela ainda é acusada por alguns fãs de ter orquestrado a morte do marido, mesmo não havendo nada que prove tal acusação. Em 2012, Courtney expôs seus desenhos e pinturas em uma exposição, a coleção foi intitulada de “And she’s not even pretty” (e ela não é nem bonita), acho que explica bastante coisa sobre como ela deve ter se sentido nos últimos 25 anos, né?

3 – Yoko Ono

Quem é? Yoko teve a oportunidade de estudar em uma das mais tradicionais escolas do Japão, graças a condição financeira de sua família. Chegando em Nova York se formou em música e vivia rodeada de ideias e pessoas inspiradoras que influenciaram seu trabalho, entre eles John Cage e George Maciunas.

O que ela fez? Antes de continuar, o Huffpost Brasil tem uma definição bem interessante sobre arte conceitual: “Um dos pilares da arte conceitual está na valorização da ideia (imaterial) que se esconde por trás de uma obra em detrimento do formato da obra (material) em si.”. A arte de Yoko tanto no campo das artes plásticas quanto na música, sempre foi completamente conceitual, tendo como objetivo experimentar e confrontar, não necessariamente nessa ordem.

Yoko tem uma discografia invejável, com mais de 20 discos gravados e reconhecimento (tardio) de grandes artistas e críticos musicais, consagrou-se como uma das principais artistas do Fluxus, movimento artístico do século passado.

Pelo que é lembrada? Por ter supostamente acabado com os Beatles. Fãs culpam Yoko por ter plantado a ideia do fim da banda na cabeça de seu ex-marido, John Lennon. Todo mundo sabe que não. Inclusive, Paul McCartney declarou a pouco tempo (afinal, antes tarde do que nunca) que os Beatles já se separariam de qualquer forma, o que é a mais pura verdade. Além disso, Yoko é constantemente ridicularizada por conta de seus discos experimentais que são, de fato, muito diferentes do que é consumido pela massa. É conceitual, é experimental e não é para ser facilmente entendido.

A redenção de Yoko veio recentemente, quando foi reconhecida por grandes veículos de mídia como uma artista de vanguarda. Mas isso levou mais 30 anos após a morte de John. A grande questão é: se ele estivesse vivo, ela provavelmente ainda estaria vivendo à sua sombra e sendo acusada de ter posto fim na banda do marido.

http://www.deveserisso.com.br/blog/wp-content/uploads/2017/07/courtney-love.jpghttp://www.deveserisso.com.br/blog/wp-content/uploads/2017/07/courtney-love-150x150.jpgBruna DiasMusica
© Alan Levenson/Corbis Uma das músicas mais clichês da década de 90, What's Up do 4 Non Blondes, tem o seguinte verso: 'I realized quickly when I knew I should That the world was made up for this Brotherhood of man For whatever that means' E a sensação é essa mesmo, percebemos cedo que o...