No ano de poetas no topo, as minas montaram a sobreloja




No ano que o rap nacional atravessa um de seus períodos mais prolíficos em relação a lançamentos e surgimento de novos talentos, as mulheres que fazem a cena mostram que são o presente consolidado e futuro seguro para o gênero.

O caminho segue tortuoso, as dificuldades encontradas por Dina Di, Cris, Negra Li e Stefanie ainda existem. Porém o que foi construído é uma base fortíssima para que hoje a visibilidade e o respeito pelo trampo das minas seja cada vez maior.

E aos poucos o público começa a enxergar o rap como um universo plural. Sem amarras de gênero ou distinções sobre quem faz o que dentro da cena. Inclusive, a visibilidade alcançada por Karol Conká ao se estabelecer como ícone de música, moda e beleza é um sinal de que o mainstream já percebeu a força dessas vozes. 

Mulheres no rap nacional estão bem acima do topo

Há algum tempo falamos sobre os melhores lançamentos desse ano de maneira mais superficial, apenas com impressões mais personalistas e emocionais. Lembramos de algumas coisas bem por cima e deixamos aberta a discussão, sem nenhuma pretensão de estabelecer um ranking definitivo ou algo do tipo.

Entre as artistas citadas, o destaque era a Clara Lima, única até o momento a lançar material novo. E no intervalo de menos de um mês já saíram mais duas pedradas e a promessa  de mais outra para um futuro próximo. Por isso vamos falar um pouco sobre esses lançamentos recentes.

Clara Lima

Definitivamente maioridade não significa maturidade. São vários exemplos de pessoas que mesmo após vários anos de vida e experiência profissional seguem estagnados em ideias limitadas. Seja por estarem viciados em um padrão de pensar e produzir ou por pura incapacidade. Alguns, porém, percebem com os exemplos ao redor e utilizam isso para sair na frente, mesmo quando todas as estatísticas sugerem o contrário.

Clara Lima assombrou meio mundo após as participações no Duelo de MC’s e estava evidente que o Viaduto Santa Tereza já era pequeno pro talento dela. Juventude e sagacidade estão presentes nos flows e melodias de seu primeiro trampo, reforçados pela clareza de quem sabe do que e como falar.

A transição entre as ruas e o estúdio foi rápida e nada traumática. O discurso afiado e ideais definidos são transparentes em cada linha. Clara exemplifica a insistência para que haja mais espaço para mulheres dentro do rap, com visibilidade e abertura para que essas vozes não sejam exceção.

Uma oportunidade bastou para ela, uma raridade, seja pela assertividade ou pela recepção da cena. Felizmente teremos muito tempo para ouvir tudo que ela tem a oferecer.

 

Rimas e Melodias


Desde sua formação, a ideia era criar um diálogo entre mulheres que rimam e cantam. Daí surgiu o nome do coletivo Rimas & Melodias que se propõe a desconstruir moldes e dar visibilidade a mulheres. Sobretudo negras, tanto na música quanto na sociedade.

Uma faceta interessante no Rimas & Melodias é que cada artista já trilha seu caminho de forma segura. E a reunião de nomes desse calibre reforça a tendência de união de novos artistas na construção de uma cena mais plural e consistente.

O single ‘Origens’ lançado há pouco mais de um mês foi a apresentação do disco disponibilizado hoje. Todo o trabalho foi gravado no Red Bull Station. E nesse som cada uma das integrantes exalta suas raízes, tanto pessoais quanto musicais, mostrando que as semelhanças acabam sendo maiores que as diferenças na construção sonora do grupo.

Esse dream team reúne diversas vozes e vertentes sonoras que compõe o cenário do rap. Essa variedade traz uma sonoridade única e complexa, onde cada uma complementa as lacunas deixadas pelas outras.

Flora Matos

Entre os nomes mais respeitados no cenário, Flora Matos se destaca pela capacidade de produção artística e desenvolvimento de seus trampos partindo de suas habilidades e competências. No álbum Eletrocardiograma, ela produziu 5 faixas, fez a mixagem e a direção artística. A independência e o controle sobre o próprio trabalho condiz com a personalidade dessa artista.

E após muita espera, o primeiro álbum finalmente chegou e de cara confirmou todas as expectativas criadas. Todas as composições são de uma leveza impressionante. A capacidade de fazer hits não é novidade, chega a parecer um compilado de tudo que Flora produziu de melhor até hoje.

Os beats chagam a ser sedutores, o clima que é criado ao longo do álbum é o da novidade de uma paixão nova. Conhecer e se reconhecer em outras linhas com naturalidade, como se tudo aquilo fosse roteirizado previamente e as coincidências não fossem um acaso.

O tom personalista vai ficando para outros planos e as frases e expressões podem ser aplicadas universalmente, esse é um talento raro, para muito poucos. Um álbum para ouvir em qualquer momento. 

 

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No ano que o rap nacional atravessa um de seus períodos mais prolíficos em relação a lançamentos e surgimento de novos talentos, as mulheres que fazem a cena mostram que são o presente consolidado e futuro seguro para o gênero. O caminho segue tortuoso, as dificuldades encontradas por Dina Di,...