Resenha de A Cidade e a Cidade, de China Miéville




Imagine viver em uma cidade em que você não pode olhar para o seu vizinho. Ou para o mercado do outro lado da rua. Ou para a bela construção ultramoderna no caminho do trabalho. Essa é a realidade em Ul Qoma e Besźel, duas cidades-Estado que ocupam o mesmo espaço geográfico e onde um olhar para o prédio errado representa uma violação de fronteira passível de punição nas mãos da terrível e misteriosa Brecha – uma polícia secreta que surge sem ser chamada ou se anunciar.

“Quando o corpo de uma mulher assassinada é encontrado na decadente cidade de Besźel, em algum lugar nos confins da Europa, parece apenas mais um caso trivial para o inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Hediondos. À medida que avança a investigação, as evidências começam a apontar para conspirações muito mais estranhas e mortais do que ele poderia supor, levando-o à única metrópole na Terra tão estranha quanto a sua: Ul Qoma. As duas cidades ocupam o mesmo espaço geográfico mas constituem nações diferentes, monitoradas por um poder secreto conhecido como Brecha. Em ambas as cidades, ignorar a separação, mesmo sem querer, é considerado um delito imperdoável, mais grave do que cometer um assassinato (resumo da capa).”

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Em uma representação surreal de uma nova Cortina de Ferro, China Miéville, um dos nomes mais importantes de uma ramificação da literatura fantástica conhecida como “new weird”, traz para as páginas de seu romance A Cidade e a Cidade (Boitempo Editorial, 2014), fronteiras invisíveis que podem ser ainda mais opressoras do que grades ou cancelas e que precisarão ser rompidas para que seja possível levar à justiça os responsáveis pela morte de uma jovem.

Vencedor de vários prêmios internacionais, incluindo o Hugo, o livro trata de noções como autovigilância e punição, costumes e alienação de forma magistral, mostrando o porquê de Miéville, ser apontado como um dos grandes expoentes da literatura de fantasia contemporânea. O assassinato, a princípio visto como banal em uma cidade que que se esfacela diante de uma vizinha cada vez mais luxuosa – e com problemas não menos sinistros -, traz à tona uma teia de conspirações e mostra como a vigilância pode ser ainda mais nociva quando assimilada pelo próprio vigiado – e onde a ruptura pode ser mais difícil do que o esperado. As referências claras à situação de Berlim no pós-guerra permitem a extrapolação das dimensões do que é uma fronteira ou de como cicatrizes de diferenças ideológicas podem perdurar.

Com a linguagem como mais um atrativo – o texto se apresenta uma tradução de um suposto manuscrito escrito na língua Besźel, o fictício besź – causa o estranhamento necessário para que embarquemos nessa narrativa onde o próprio espaço é uma alteridade constante, ainda que seja uma alteridade com a qual se tenha muito a compartilhar.

“Nós havíamos passado pelas pontes baixas da Cidade Velha de Besźel e entrado nas convoluções dos arredores do Copula Hall, descendo finalmente para seu quadrante de tráfego. Passando por baixo e para além dos trechos de fachada onde cariátides pareciam ao menos um pouco com as figuras da história beźs, indo na direção de onde elas eram ul-qomanas e penetrando no próprio hall, onde uma ampla estrada iluminada do alto por janelas e luzes cinzentas era ladeada na extremidade beźs por uma longa fila de pedestres procurando entrada para o dia. Na distância além dos faróis vermelhos fomos encarados pelos faróis escuros dos carros ul-qomanos, mais dourados que os nossos.”

Resenha de A Cidade e a Cidade, de China Miéville
Unindo a atmosfera opressiva de grandes distopias, com fantasia, fanatismo, patriotismo extremista e história, A Cidade e a Cidade é um romance que vale a pena ser lido não apenas pelos amantes de literatura fantástica, mas por aqueles que acreditam que o elemento humano e suas regras são a origem das mais estranhas criaturas.

E aí, o que você achou do livro A cidade e a Cidade? Conte para gente!

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