O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Michel Grondy já é, sem dúvida, um clássico contemporâneo e há poucos dias tive a excelente ideia de assistir novamente. Para minha surpresa, nunca achei que o filme estivesse tão atual.

Em o Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, acompanhamos Joel e Clementine, duas pessoas absurdamente diferentes, mas que ainda assim se relacionam. Embora o relacionamento funcione muito bem durante um tempo, eles acabam terminando de forma bastante traumática. Diante disso, ele recorrem a uma empresa chamada Lacuna, Inc. que é capaz de apagar da memória experiências que as pessoas não querem mais. Na maioria dos casos, relacionamentos que terminaram mal. E acompanharemos Joel passando por esse procedimento, após descobrir que Clementine já realizou e o esqueceu.

Embora essa sinopse deixa parecer que o filme tem bastante realidade, não se deixe enganar, é um filme de Kafman, roteirista de Quero Ser Jhon Malkovich e Natureza Quase Humana. E O Brilho Eterno acontece em sua maioria dentro da cabeça de Joel, ou em linha temporal diferente, que podem ser percebidas pela cor do cabelo de Clem.

O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é um conjunto de uma direção primorosa, roteiro incrível e elenco fabuloso com grandes nomes, como Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Elijah Wood, Mark Ruffalo e Tom Wilkinson.

Feliz é a inocente vestal
Esquecendo-se do mundo e sendo por ele esquecida
Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança
Eloisa to Abelard – Alexander Pope

Há alguns dias, percebi que mesmo sendo um filme com quase duas décadas, ele ainda possui questionamentos bastante atuais. Vemos duas pessoas adultas com personalidades bastante opostas se relacionando, afinal, existe aquela máxima de que “os opostos se atraem”. Mas, esse meme juvenil não leva em conta que a vida a dois é um pouco mais complicada do que apenas uma conversa divergente em mesa de bar.

Por isso, o filme mostra desde os melhores momentos do casal até O pior momento. E os questionamentos começam aí!

Eu poderia morrer agora, Clem… Eu estou tão feliz… Estou exatamente onde eu quero estar

Mesmo que esse momento tenha sido muito ruim, ele é capaz ou deveria ser capaz de fazer com que todos os momentos bons mereçam ser esquecidos? Devemos esquecer? Afinal, são os momentos bons e ruins que nos guiam ao crescimento. Se optarmos por ignorar/esquecer lembranças que não terminaram do jeito que esperávamos, o que sobra? É uma questão bastante simples de aprendizado. Nós aprendemos, principalmente, com as falhas, e apaga-las só mostra a imaturidade de desejar um relacionamento irreal

O Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança é um filme para ser lembrado, hoje e sempre. Não trata apenas de um romance, mas trata de relacionamento, aprender a lidar com a dor emocional e principalmente, o crescimento.

A reflexão proposta já era pertinente à época, porém, é incrível constatar que ela é ainda mais urgente nos dias atuais. As redes sociais e todo o modelo de vida que nos vendem, com a obrigatoriedade de ser feliz e realizado está criando uma legião de adultos infantilizados, incapazes de lidar com suas próprias dores. Por que meu final de semana não foi tão divertido e fotografado como do meu amigo? Por que meu trabalho não tem o mesmo glamour das fotos madrugada a dentro do meu vizinho? Parecem questionamentos bem distantes dos do filme, que mostra sobretudo o relacionamento, mas na verdade, dialogam com perfeição, pois trata-se simplesmente da incapacidade de lidar com sofrimento, indispensável para o crescimento

Por isso, vejam o filme com uma perspectiva bem mais ampla do que lidar com um coração partido. A provocação dele é muito maior que isso, pena que foi preciso quase 20 anos para realmente entendê-la.

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O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Michel Grondy já é, sem dúvida, um clássico contemporâneo e há poucos dias tive a excelente ideia de assistir novamente. Para minha surpresa, nunca achei que o filme estivesse tão atual. Em o Brilho Eterno...