Não é a primeira e, infelizmente, não parece ser a última vez que falaremos aqui sobre preconceito e apropriação cultural na música brasileira. Estávamos parados na época em que rolaram as polêmicas acerca do racismo e misoginia no rap nacional envolvendo dois MC’s brancos e, pelo que se percebeu, completamente desconectados do universo que fazem parte.

Portanto, deixamos linkados os textos para que quem não estava a par dos casos ter acesso ao que outros canais opinaram e reportaram.

Nesta coluna, aproveitaremos o belo salve dado pela sambista e deputada Leci Brandão ao cantor sertanejo César Menotti – que proferiu a seguinte frase em rede nacional: “E tem mais, samba é coisa de bandido!” – para estender a conversa sobre o racismo incrustado novo público de rap nacional.

Som de preto, de favelado né?

Ano passado gravamos este programa teorizando sobre o rap ser o novo rock. Por ser um estilo que surgiu com os pretos e assumiu o papel de objeto de contestação social, além de exercer o protagonismo cultural de uma geração. E obviamente, depois foi cooptado e embranquecido pela indústria fonográfica para entregar um produto mais palatável para um mercado consumidor que conserva inabalável seu racismo velado.

Utilizamos dados e exemplos globais para localizar o contexto nacional. Ainda que de forma rasa, o texto abre o espaço para discussão. Hoje, relendo, percebi que deixei de fora uma variante importante sobre o papel de cada estilo como agente de transformação social. E sim, discordo em parte daquilo que escrevi.

Deveria ter lembrado do papel do samba nesse contexto. Desde sua criação, sempre foi instrumento de resistência e reafirmação da cultura negra e popular. Para entender profundamente esse papel, sugiro este estudo da Larissa Lisboa publicado na revista África e Africanidades.

A partir dos anos 1980, o samba ganhou um forte aliado e dividiu o protagonismo com o rap como canal de informação e afirmação identitária. E de certa forma, transferiu a pecha de “coisa de bandido” para o estilo que ganhava formato próprio aqui no Brasil.

Por anos o rap foi marginalizado e sobreviveu por conta própria, brigando contra limitações estruturais, racismo e ganhando espaço à fórceps. Até que um dia, o mercado percebeu que existia ali um mercado consumidor gigantesco. E no vácuo de bandas de rock, duplas sertanejas e um monte de artista tilelê formados por produtores, surgiu o rap universitário.

Conseguiram o que queriam, um rap de branco pra branco. Cada vez mais vazio e desconectado dos preceitos básicos da cultura hip-hop.

Que toca pra boy e pra paty na boate onde os preto é barrado

Longe de querer definir o que é bom ou ruim, ainda mais opinar sobre o que cada um faz com seu tempo livre. Também pouco importa se artista A ou B tem milhões de views ou quanto colocam no bolso por cada show. Mas como disse o Don L, se o seu lance é ser modelo free da Supreme, num fala que isso é hip-hop.

E não é purismo ou cobrança, achando que todo artista tem que seguir uma cartilha e escrever sobre temas predefinidos. A grande merda é ver uns correndo tanto e fazendo o possível pra manter vivo algo que une e significa tanto, enquanto outros estão aí pra produzir uma geração de playboy que compara outfit (olha que expressão de bosta).

Onde eu quero chegar com isso? Nem sei, talvez hoje tenha passado tempo demais em redes sociais alimentando a raiva e vergonha alheia. Já que não teria tempo pra responder cada merda que lia, resolvi reclamar sobre o nada, para ninguém.

Não é sobre quem merece mais ou menos, porque vocês já estão ligados pra quem faz sentido esse papinho de meritocracia. É sobre respeitar a história e as bases do movimento que você faz parte. Inclusive e principalmente, o público precisa ter essa auto-crítica. Entenda teu lugar, teu privilégio e na dúvida, faça como o Neto (Síntese).

O funk também tem um papel importantíssimo nessa conversa, mas ainda preciso de mais contextualização para dissertar. Fique ligado no Frequência que em breve faremos uma atualização desta postagem.

https://www.deveserisso.com.br/blog/wp-content/uploads/2018/06/branca-de-neve-ignorada.pnghttps://www.deveserisso.com.br/blog/wp-content/uploads/2018/06/branca-de-neve-ignorada-150x150.pngIkie ArjonaMusica
Não é a primeira e, infelizmente, não parece ser a última vez que falaremos aqui sobre preconceito e apropriação cultural na música brasileira. Estávamos parados na época em que rolaram as polêmicas acerca do racismo e misoginia no rap nacional envolvendo dois MC’s brancos e, pelo que se percebeu,...